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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Crianças pastoras? Quais as qualificações para um pastor?



Hoje à noite vai passar no canal National Geographic, um programa intitulado “Pregadores Mirins”. O programa vai contar a história de três diferentes crianças que “promovem uma guerra contra os pecadores”, de acordo com o próprio site da NetGeo.
Eu planejava escrever um texto sobre isso, mas como o Renato Vargens já escreveu um ótimo texto sobre o assunto, resolvi postar um link para o texto dele. Ele aborda a questão praticamente da mesma forma que eu abordaria.
Então, resolvi escrever sobre quais são as qualificações para um pastor, de acordo com a Bíblia. Será que uma criança teria as qualificações necessárias para assumir um púlpito? Será que qualquer adulto teria essas qualificações?
Antes de me lançar ao texto, só gostaria de dizer que qualquer um pode imitar os trejeitos de uma outra pessoa. Com um pouco de treino, qualquer um pode liderar um culto altamente “espiritual”. Até um não cristão pode muito bem fazer “chover fogo do céu” em um reunião evangélica. Como muitas dessas reuniões são balizadas não pela veracidade bíblica, mas por ideias pré-concebidas sobre o que é espiritual ou não, regada a muitos trejeitos, somar tudo isso a algo como uma mente coletiva (mal informada sobre a Bíblia) gera uma experiência facilmente copiável e manipulável. Portanto, não devemos nos surpreender que uma criança possa imitar os trejeitos de um pastor carismático. Ou que um ateu o possa fazê-lo. Por isso que Paulo disse “apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" (Romanos 12:1). Um culto baseado em trejeitos dificilmente seria chamado de racional.

Quais são as qualificações para um pastor?
Os textos que nos explicam quais as qualificações necessárias para ser um pastor se encontram nos livros de 1 Timóteo, capítulo 3 e em Tito 1, ambos escritos por Paulo. Vamos primeiro ver o texto de 1 Timóteo 3:1-7:
“Esta afirmação é digna de confiança: se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função.É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro.Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade.Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o diabo.Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do diabo.”
O texto de Tito 1:6-9 diz assim:
“É preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher, e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão.Por ser encarregado da obra de Deus, é necessário que o bispo seja irrepreensível: não orgulhoso, não briguento, não apegado ao vinho, não violento, nem ávido por lucro desonesto.É preciso, porém, que ele seja hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, consagrado, tenha domínio próprio.”
De ambos os textos, podemos ver que não é qualquer um que possui as qualificações para o pastorado.

É necessário que aquele que aspira ao cargo de pastor, seja:
  • Irrepreensível, de boa reputação;
  • Casado com apenas uma mulher (poligamia era muito comum naquele tempo e como é uma prática contrária a vontade de Deus no casamento, um homem casado com mais de uma esposa não poderia ser pastor).
  • Sóbrio;
  • Prudente;
  • Respeitável;
  • Hospitaleiro;
  • Pronto para ensinar;
  • Não seja dado à bebida;
  • Não seja violento;
  • Não seja ganancioso (muitos pastores da teologia da prosperidade podem ser desqualificados apenas com esse item);
  • Deve ser amável e pacífico;
  • Saber governar a família
  • Justo;
  • Ter domínio próprio;
  • Não deve ser recém-convertido
  • Humilde.

Nem todas as pessoas possuem essas qualificações. Uma criança tão pouco as teria.
Além dessas qualificações, existe uma recomendação dada aos pastores que eles fariam muito bem em seguir. Recomendação essas que crianças não podem seguir e que muitos adultos torcem o nariz para a simples ideia de agir como Paulo recomenda em 2 Timóteo 3:14 até 4:2:
“Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu.Porque desde criança você conhece as sagradas letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus.Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos por sua manifestação e por seu Reino, eu o exorto solenemente:Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina.”
Não acredite em qualquer um que diz que é pastor. Se a pessoa não possui as qualificações para o pastorado, pouco importa se ela se auto-intitula como tal ou é assim chamado por outros. O que faz um pastor não são os seus trejeitos, a intensidade ou o sentimento que a mensagem que ele traz causa em nossos corações. Eu já estive em palestras motivacionais que mexeram mais com meus sentimentos do que muitos cultos evangélicos. A diferença está nas qualidades que um ministro possui e em seu empenho de fazer um bom trabalho na pregação fiel da Palavra de Deus, conforme nos foi ensinado pelos apóstolos.
Ver adultos sem escrúpulos e sem conhecimento manipulando crianças para que parecem cheias do Espírito é uma tristeza sem tamanho. Mas enquanto houver um mercado consumidor para esse tipo de produto desprezível, estaremos sujeitos a ver essas notícias na televisão, tornando cada dia mais difícil se identificar como evangélico.
http://mauevivian.blogspot.com/

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Ateísmo - uma visão por demais simplista - C.S. Lewis


Pediram-me para dizer em que os cristãos crêem, mas vou começar com uma coisa na qual não precisam crer. Se você é um cristão, você não precisa crer que tudo nas demais religiões é simplesmente errado. Se você é ateu, então sim, você tem de crer que o ponto central de todas as religiões do mundo não passa de um enorme engano. Se você é um cristão, você é livre para pensar que todas as demais religiões, mesmo as mais excêntricas, contêm ao menos alguma alusão à verdade. Quando eu era ateu, tinha que procurar persuadir-me de que a maior parte da humanidade sempre se enganou no ponto mais importante; quando me tornei cristão, pude ver as coisas mais liberalmente. Contudo, o cristão tem de admitir que, nos pontos em que o Cristianismo diverge de outras religiões, ele é verdadeiro, e as outras religiões são falsas. É como em aritmética: há somente uma resposta certa para uma soma, e as outras estão erradas; mas algumas das respostas erradas estão muito mais próximas da certa do que outras.

A primeira grande divisão da humanidade é entre a maioria que crê em algum tipo de Deus, ou deuses, e a minoria que não crê. Neste particular o Cristianismo põe-se do lado da maioria; põe-se do lado dos antigos gregos e romanos, dos selvagens modernos, dos estóicos, platônicos, hindus, maometanos etc, contra os modernos materialistas ocidentais europeus.

Vejamos agora a segunda grande divisão. Todos os que crêem em Deus podem ser divididos segundo a espécie de Deus em que crêem. Há duas idéias bem diferentes neste ponto. Uma delas é a de que Deus está além do bem e do mal, e que nós, os homens, é que chamamos algumas coisas de boas e outras de más. Mas, segundo essas pessoas, isso é apenas o nosso ponto de vista humano. Dizem essas mesmas pessoas que, quanto mais sábios nos tornamos, menos inclinados ficamos a denominar as coisas como boas ou más, e vemos mais claramente que as coisas são boas num sentido e más em outro, e que nada poderia ter sido diferente. Assim essas pessoas julgam que, bem antes que nos aproximássemos do ponto de vista de Deus, esta distinção entre o que é bom e o que é mal teria desaparecido. Dizemos que um câncer é mau porque mata um homem; mas poderíamos também dizer que um ótimo cirurgião é mau porque mata um câncer. Tudo depende do ponto de vista. A outra idéia oposta é a de que Deus é definitivamente "bom" ou "justo". É um Deus que toma partido, que ama o que é amável e odeia o que é odioso, que quer que procedamos de um certo modo e não de outro. A primeira destas correntes, a que julga que Deus está além do bem e do mal, chama-se panteísmo. Foi defendida pelo grande filósofo prussiano Hegel e, pelo que sei, também pelos hindus. A outra corrente é defendida pelos judeus, maometanos e cristãos.

Esta grande diferença entre o panteísmo e a idéia cristã de Deus vem geralmente acompanhada de uma outra diferença. Os panteístas crêem que Deus, por assim dizer, impulsiona o universo como nós impulsionamos nossos  corpos; que o universo quase é Deus, de modo que, se o universo não existisse,  Ele também não existiria; e tudo o que     encontramos no universo é parte de Deus. O conceito cristão é completamente diferente. Os cristãos crêem quê Deus inventou e fabricou o universo, como um homem que faz um quadro ou compõe uma canção. Um pintor não é a pintura, e não morre se a sua pintura é destruída. Podemos dizer: "Ele colocou muito de si no quadro", mas isto quer dizer que toda a beleza e o interesse provêm da cabeça do artista. A habilidade do pintor não está na pintura da mesma maneira que está na cabeça ou mesmo nas mãos dele. Espero que você perceba como esta diferença entre panteístas e cristãos é paralela àquela outra diferença. Se não levamos muito a sério a distinção entre o bem e o mal, então é fácil afirmar que tudo o que encontramos neste mundo é uma parte de Deus .Mas se achamos que algumas coisas são realmente más, e que Deus é realmente bom, então não podemos falar desse modo. Você tem de crer que Deus está separado do mundo e que algumas coisas que vemos por aí são contrárias à vontade de Deus. Diante do câncer ou de uma favela, o panteísta pode dizer: "Se ao menos você pudesse ver isso do ponto de vista divino, compreenderia que isso também é Deus". O cristão replica: "Não diga esta maldita tolice!" Porque o Cristianismo é uma religião combativa. Ensina que Deus fez o mundo, o espaço e o tempo, o calor e o frio, as cores e os sabores, os animais e os vegetais, tudo são coisas que Deus "tirou da sua cabeça"; é como alguém que tenha inventado uma história. Mas o cristão acha também que muitas e muitas coisas foram corrompidas no mundo que Deus fez, e que Deus insiste vigorosamente em que as restituamos ao que devem ser.


Isso naturalmente suscita uma grande pergunta. Se o mundo foi feito por um Deus que é bom, por que o mundo se perverteu? E por muitos anos eu simplesmente me recusei a dar ouvidos à resposta que o Cristianismo dá a esta questão, porque me mantive na minha opinião de que "qualquer coisa que me digam e por mais inteligente que seus argumentos sejam, não é muito mais simples e mais fácil dizer que o mundo não foi feito por um poder inteligente? Não são todos esses argumentos simplesmente uma complicada tentativa para contornar o que é óbvio?" Mas isso acabou por me levar a uma outra dificuldade.

O meu argumento contra Deus era de que o universo parece ser muito cruel e injusto. Mas de onde tirei esta idéia de justo e injusto? Ninguém diz que uma linha é torta se não tiver uma idéia do que seja a linha reta. Com o que eu comparava este universo quando o chamava de injusto? Se todo o panorama fosse mau e absurdo de A a Z, por que eu, que sou necessariamente parte do panorama, reagi violentamente contra ele? Nós nos sentimos molhados, se cairmos na água, porque não somos animais aquáticos: um peixe não se sente molhado. Eu poderia, naturalmente, desfazer-me da minha idéia de justiça dizendo que não era nada mais do que uma idéia pessoal minha. Mas se o fizesse, então o meu argumento contra Deus também se desfaria, pois o argumento dependia da afirmação de que o mundo é realmente injusto e não simplesmente de que não agrada às minhas idéias pessoais. Assim é que ao mesmo tempo em que tentava provar que Deus não existe (em outras palavras, que a realidade é totalmente absurda) verificava que era obrigado a admitir que uma parte da realidade, a minha idéia de justiça, não era absurda e tinha muito sentido. O ateísmo, conseqüentemente, é uma coisa por demais simplista. Se todo o universo não tem sentido, nunca descobriríamos que ele não tem sentido, do mesmo modo que, se não houvesse luz no universo, nem, conseqüentemente, criaturas com olhos, nunca saberíamos que era escuro. A palavra escuro seria uma palavra sem sentido.

Os homens não escolhem naturalmente a Cristo


“Não fostes vós que me escolhestes a mim”. Isto era verdade a respeito dos apóstolos; também é verdade a respeito de todos os que crerão em Jesus, até o final do mundo. “Não fostes vós que me escolhestes a mim.” O ouvido natural é tão surdo, que não pode ouvir; os olhos naturais, tão cegos, que não podem ver a Cristo. Em certo sentido, é verdade que todo verdadeiro discípulo escolhe a Cristo; mas isto acontece somente quando Deus abre os olhos da pessoa, para que ela veja a Jesus; quando Deus outorga vigor ao braço ressequido, para que ele abrace a Cristo.
O significado das palavras de Jesus era: “Vocês nunca me teriam escolhido, se eu não os tivesse escolhido”. É verdade que, quando Deus abre o coração do pecador, este escolhe a Cristo e a ninguém mais, somente a Cristo. É verdade que um coração vivificado pelo Espírito sempre escolhe a Cristo, a ninguém mais, somente a Cristo, e por Ele renunciará o mundo inteiro.
Irmãos, este versículo nos ensina que todo pecador despertado se mostra disposto a seguir a Cristo, mas não antes de ser tornado disposto. Aqueles que dentre vocês foram despertados, não escolheram a Cristo. Se um médico viesse à sua casa e dissesse que viera para curá-lo de sua enfermidade, e se você sentisse que não estava doente, diria ao médico: “Não preciso de você; procure o vizinho”. Esta é a maneira como você age para com o Senhor Jesus: Ele lhe oferece a cura, mas você Lhe diz que não está enfermo; Ele se oferece para cobrir, com a obediência dEle mesmo, a nudez de sua alma, mas você responde: “Não preciso dessa roupa”.
Outra razão por que você não escolhe a Cristo é esta: você não vê qualquer beleza nEle. “E como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura” (Is 53.2). Você não vê qualquer beleza na pessoa de Cristo, nenhuma beleza na obediência dEle, nenhuma glória na sua cruz. Você não O vê e, por isso, não O escolhe.
Outra razão por que você não escolhe a Cristo é esta: não quer que Ele o torne santo. “Lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Mas você ama o pecado, ama os seus prazeres. Por isso, quando o Filho de Deus se aproxima e lhe diz: “Eu o salvarei dos seus pecados”, você responde: “Amo o pecado, amo os meus prazeres”. Por conseguinte, você nunca pode chegar a um acordo com o Senhor Jesus. “Não fostes vós que me escolhestes a mim.” Embora eu tenha morrido em favor de vocês, não me escolheram. Tenho lhes falado por muitos anos, mas, apesar disso, vocês não me escolheram. Tenho lhes dado a Bíblia, para instruí-los, e ainda assim vocês não me escolheram. Irmão, esta acusação lhe sobrevirá no Dia do Juízo: “Eu o teria vestido com a minha obediência, mas você não o quis”. 
R. M. M’Cheyne (1813-1843)