Lomadee

Buscapé

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"Fé e ciência não são contraditórias, e o homem só conseguirá ser completo conciliando as duas.”

Entrevista de Francis Collins


Francis Collins – The Scientist as Beliver 

A tensa relação entre ciência e religião tem se tornado particularmente combativa ultimamente. De um lado temos cientistas como Richard Dawkins e Steven Pinker queFrancis Collins vêem a religião como um resíduo de nossa superstição, um passado pré-científico que a humanidade deveria abandonar. Do outro lado temos religiosos que declaram que a ciência é moralmente niilista e inadequada para enteder os mistérios da existência. Nas brechas anda Francis Collins, que se oferece como prova de que a ciência e a religião podem ser reconciliadas. Como líder do Projeto Genoma Humano, Collins está entre os cientistas mais importantes do mundo, líder de um programa de pesquisa de muitos bilhões de dólares que estuda a natureza humana e cura de doenças. E, ainda, em seu best-seller “The Language of God” (A linguagem de Deus), ele relata como aceitou a Cristo como seu salvador em 1978 e como se tornou um cristão devoto desde então. “O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma”, escreve Collins. “Ele pode ser adorado numa catedral ou em um laboratório”. Recentemente, Collins discutiu sua fé com um escritor científico John Horgan, que tem explorado os limites entre a ciência e a espiritualidade em seus livros “The End of Science” (O fim da ciência) e “Rational Mysticism” (Misticismo Racional). Horgan, que se descreve como “um agnóstico cada vez mais perturbado pela influência religiosa nas questões humanas”, dirige o Centro de Escritos Científicos no Instituto de Tecnologia Stevens, em Hoboken, Nova Jersey.
Entrevista por John Horgan
Horgan: Como um cientista que busca por uma explicação natural das coisas e exige evidências pode também acreditar em milagres como ressureição?
Collins: Não tenho problema com o conceito de que milagres ocorrem ocasionalmente em momentos de grande importância, onde há uma mensagem a nos ser transmitida pelo Deus Todo-Poderoso. Mas, como cientista, mantenho meus padrões de milagres bem altos.
Horgan: O problema que eu tenho com milagres não é somente que eles violam o que a ciência nos diz sobre como o mundo funciona. Eles também fazem Deus parecer bastante caprichoso. Por exemplo, muitas pessoas acreditam que se elas orarem o bastante, Deus irá interceder para curá-las ou curar alguém amado. Mas isso significa que aqueles que não melhoraram não foram dignos?
Collins: Em minha própria experiência como médico, não tenho visto milagres de cura, e não tenho a expectativa de ver algum. Além disso, pra mim a oração não é um meio de manipular Deus dizendo o que queremos que Ele faça. Oração pra mim é muito mais um sentido de tentar um relacionamento com Deus. (Na oração) estou tentando compreender o que eu deveria estar fazendo, ao invés de estar dizendo ao Deus Todo-Poderoso o que Ele deveria estar fazendo. Olhe a oração do Senhor Jesus. Ela diz “Seja feita sua vontade”. Não era “Nosso Pai que estás no céu, por favor arranje um espaço no estacionamento pra mim”.
Horgan: Devo admitir que me tormei mais preocupado ultimamente acerca dos efeitos prejudiciais da religião devido ao terrorismo religioso, como o 11 de setembro, e o crescimento do poder religioso de direita nos Estados Unidos.
Collins: Qual fé não tem sido usada por demagogos como um clube tirado da cabeça de alguém? Seja na Inquisição ou nas Cruzadas de um lado, ou do outro o World Trade Center? Mas não devemos julgar a pura verdade da fé pela maneira que eles a usam, mais do que podemos julgar a pura verdade do amor por um casamento abusivo. Nós, como crianças de Deus, recebemos o conhecimento do certo e do errado, esta é a Lei Moral, a qual eu vejo como um sinal particular da existência dEle. Mas, temos também isso que chamamos de livre arbítrio, o qual exercemos todo o tempo para quebrar a Lei. Não deveríamos culpar a fé pela a maneira que as pessoas a distorcem e abusam dela.
Horgan: Muitas pessoas sofrem na crença em Deus por causa do problema do mal. Se Deus nos ama, porque a vida é tão cheia de sofrimento?
Collins: Esta é a questão fundamental a ser enfrentada por todo aquele que busca a verdade. Antes de tudo, se a nossa meta é crescer, aprender e descobrir coisas acerca de nós mesmos e de Deus, então, infelizmente, uma vida de facilidades não será provavelmente o meio de conseguir isso. Eu sei que eu tenho aprendido muito pouco sobre mim ou Deus quando tudo está indo bem. De novo, uma porção de dor e sofrimento no mundo não podem ser depositadas nos pés de Deus. Ele nos deu o livre arbítrio, e nós podelhos escolher exercitá-lo de maneiras que acabam machucando outras pessoas.
Horgan: O físico Steven Weinberg, que é ateu, pergunta por quê seis milhões de judeus, incluindo seus parentes, tiveram que morrer no Holocausto, para que os nazistas pudecem exercer seu livre arbítrio.
Collins: Se Deus tivesse que intervir milagrosamente todas as vezes que um de nós faz algo maldozo seria um mundo bastante estranho, caótico e imprevisível. O livre arbítrio leva as pessoas a fazerem coisas horríveis umas com as outras. Como resultado, pessoas inocentes morrem. Você não pode culpar ninguém além dos malfeitores por isso. Assim, isso não é culpa de Deus. A questão mais difícil é quando o sofrimento não parece vir de uma ação humana. Uma criança com câncer, um desastre natural, um tornado ou tsunami. Por quê Deus não impede essas coisas de acontecerem?
Horgan: Alguns filósofos, como Charles Hartshorne, sugerem que talvez Deus não esteja completamente no controle de sua criação. A poetisa Annie Dillard expressa essa idéia em sua frase: “Deus, o semi-competente”.
Collins: Isto é reconfortante — e provavelmente blasfemo! Uma alternativa é a noção de Deus estando fora do universo e do tempo, tendo uma perspectiva de nossa existência onde pode ver longe em nosso passado e em nosso futuro, de algum modo admitidamente metafísico, de tal maneira que nem sempre o significado do sofrimento será evidente para mim. Pode haver razões que não conheço para coisas terríveis acontecerem.
Horgan: Sou agnóstico, e fiquei irritado quando, em seu livro, você chamou o agnosticismo de “modo de fugir do problema”. O agnosticismo não significa que você é preguiçoso ou não se importa. Significa que você não está satisfeito com as respostas para o que são ainda os maiores mistérios.
Collins: Esta foi uma palavra que não deveria ser aplicada ao agnóstico sério que tem considerado as evidências e ainda não achou uma resposta. Eu estava reagindo contra o agnosticismo que eu vejo na comunidade científica, a qual não tem chegado em um exame cuidadoso da evidência. Houve um tempo em que eu fui um agnóstico casual, e talvez tenha assumido rápido demais que os outros não foram mais fundo do que eu.
Horgan: Livre arbítrio é um conceito muito importante para mim, assim como para você. É a base para a nossa moralidade e busca por significado. Você não se preocupa com a ciência em geral e a genética em particular – e sendo você o líder do Projeto Genoma – minarem a crença no livre arbítrio?
Collins: Você está falando sobre determinismo genético, o qual implica que nós somos marionetes, sem qualquer ajuda, sendo controlados por cordas de dupla hélice. Isso é muito distante do que conhecemos cientificamente! Herança genética possui influência não somente nos riscos médicos, mas também sobre certos comportamentos e características de personalidade. Mas olhe para gêmeos idênticos, que têm exatamente o mesmo DNA mas que frequentemente comportam-se de modos diferentes ou pensam diferente. Eles mostram a importância do aprendizado e da experiência – e do livre arbítrio. Acho que todos nós, religiosos ou não, reconhecemos que o livre arbítrio é uma realidade. Existem alguns elementos extremos que dizem: “Não, isso tudo é uma ilusão, somos apenas peões em algum modelo computacional”. Mas não acho que você chega longe com essa idéia.
Horgan: O quê você pensa sobre as explicações darwinistas sobre o altruísmo, ou o que você chama de ágape, amor perfeito e compaixão por alguém não relacionado diretamente a você?
Collins: Isto tem sido um pouco como “é assim mesmo”. Alguns irão argumentar que o altruísmo têm sido suportado pela evolução porque ajuda o grupo a sobreviver. Porém, algumas pessoas se sacrificaram por aquelas que estão fora do seu grupo e com quem elas não tinham absolutamente nada em comum, como Madre Teresa, Oskar Schindler, e muitos outros. Isto é a humanidade na sua forma pura. Isso não aparenta ser explicável pelo modelo darwiniano, mas não sustento nisso a minha fé.
Horgan: Qual sua opinião sobre o campo da neuro-teologia, a qual tenta identificar as bases neurais para as experiências religiosas?
Collins: Eu acho fascinante, mas não particularmente supreendente. Nós, humanos, somos carne e osso. Assim, não seria um problema para mim – se eu no passado tivesse alguma experiência mística – descobrir que meu lobo temporal estava excitado. Isto não significa que essa experiência não tenha tido um significado espiritual genuíno. Aqueles que vêm isso crendo que não há nada além do mundo natural olharão para os dados e dirão: “Olha, viu?” Enquanto aqueles que crêem em criaturas espirituais dirão: “Legal! Há uma correlação natural para a experiência mística! O que acha disso?!”
Horgan: Alguns cientistas têm predito que a engenharia genética poderá nos dar uma inteligência sobrehumana e extender em muito a expectativa de vida, talvez até mesmo a imortalidade. Essas são consequências possíveis a longo prazo do Projeto Genoma Humano e outras linhas de pesquisa. Se essas coisas acontecerem, o que você pensa acerca das consequências na tradição religiosa?
Collins: Essas consequência seriam preocupantes para mim. Mas estamos muito longe dessa realidade para gastar tempo se preocupando, quando você considera todas as coisas realmente benéficas que podemos fazer em um curto prazo.
Horgan: Estou perguntando de verdade, a religião requer sofrimento? Poderíamos reduzir o sofrimento até o ponto que não precisaríamos de religião?
Collins: Apesar do fato de que temos alcançado avanços médicos fabulosos e feito o possível para viver mais e erradicar doenças, iremos, provavelmente, achar meios de discutir uns com os outros e algumas vezes de nos matarmos, fora de nossa sanidade e determinação de estarmos num nível acima. Assim, a taxa de morte continuará sendo uma por pessoa, qualquer que seja seu significado. Podemos entender bastante de biologia, podemos entender muito de prevenção de enfermidades, e podemos entender bastante de expectativa de vida. Mas não acho que compreenderemos como fazer os humanos pararem de fazer mal uns com os outros. Este será sempre a nossa mais dolorosa experiência aqui, e que nos fará desejar por algo mais.
—————————————————————

Nenhum comentário:

Postar um comentário